Foto: Michael Dantas/AFP

Artigo de Behring sobre violência contra a enfermagem no Brasil de Fato

agosto 26, 2025

Os profissionais da enfermagem vivem uma escalada de violência que não pode mais ser tolerada. Quem está na linha de frente, oferecendo cuidado, atenção e alívio à população, tem sido alvo de agressões físicas, verbais e psicológicas. Em vez de reconhecimento, muitos encontram hostilidade. Em vez de respeito, enfrentam ameaças dentro do próprio ambiente de trabalho.

Fantástico expôs recentemente uma realidade dura: cerca de 80% dos trabalhadores da saúde no Brasil afirmam já ter sofrido algum tipo de agressão no exercício da profissão. Os relatos vão de ofensas e empurrões a situações extremas, como ameaças armadas. No Rio de Janeiro, a categoria tem denunciado cada vez mais episódios desse tipo, revelando um cotidiano de tensão e medo.

Trata-se de um problema grave, que afeta diretamente a qualidade da assistência prestada. Um profissional que atua sob constante risco de violência adoece mais, acumula sofrimento psíquico e pode desenvolver quadros de ansiedade, depressão ou estresse pós-traumático. O impacto chega também à população, que perde em cuidado, eficiência e continuidade no atendimento.

Como deputada estadual e enfermeira, não posso me calar diante dessa realidade. A violência contra a enfermagem não é um episódio isolado; é uma crise silenciosa que ameaça tanto a dignidade do trabalhador quanto a saúde pública. É urgente transformar indignação em política pública, e é isso que tenho buscado com meu mandato.

Apresentei o Projeto de Lei nº 5039/2025, que institui o Relatório Anual de Vitimização dos Profissionais de Saúde. Esse instrumento vai reunir dados, mapear padrões de agressão e dar visibilidade a uma violência que hoje é subnotificada. Sem diagnóstico preciso não há política eficaz. Com esse relatório, gestores e autoridades terão condições de adotar medidas concretas e responsabilizar quem deve garantir a segurança das equipes.

Mas não basta registrar. É preciso agir de imediato. Por isso, protocolei também o Projeto de Lei nº 5058/2025, que estabelece medidas de proteção diretas e efetivas. O texto prevê a criação de Comissões de Humanização em todas as unidades de saúde, para promover acolhimento e prevenir conflitos. Determina a capacitação das equipes em relacionamento interpessoal, a notificação obrigatória dos casos de violência no SINAN, o atendimento médico, psicológico e jurídico às vítimas, além de medidas de proteção como a mudança de setor ou turno, sem prejuízo salarial, e o afastamento do agressor.

Essas iniciativas representam mais do que palavras no papel. São respostas estruturadas para que enfermeiros, enfermeiras e técnicos de enfermagem não estejam sozinhos quando a violência acontece. É o Estado assumindo a responsabilidade de proteger quem protege.

A enfermagem não pede privilégios. O que exigimos é respeito, condições dignas de trabalho e segurança. Cada enfermeiro, enfermeira ou técnico de enfermagem que sofre violência carrega uma marca que ultrapassa a vida pessoal e atinge todo o sistema de saúde. Proteger esses trabalhadores é proteger o direito de toda a sociedade a um cuidado humano, qualificado e contínuo.

O Rio de Janeiro não pode naturalizar essa realidade. É hora de transformar cada denúncia em ação, cada caso de violência em gatilho para uma resposta firme. Os projetos de lei que apresentei caminham nesse sentido: levantar dados, criar políticas, acolher vítimas e impedir que o agressor siga impune.

Quando um profissional da enfermagem é agredido, não é apenas uma pessoa que sofre — é toda a rede de saúde que sangra. Porque sem a enfermagem, simplesmente não existe cuidado.

Defender a enfermagem é defender a vida. E o meu compromisso é seguir firme nessa luta, dentro e fora do parlamento. Porque quem dedica sua vida a salvar outras merece, no mínimo, voltar para casa em paz.

*Lilian Behring é deputada estadual (PCdoB-RJ), enfermeira e defensora da saúde pública e da dignidade profissional.

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